sexta-feira, julho 21

 

Olhar a oposição

A Laranja não tem sumo
A bancada social-democrata elaborou, até ontem, metade (45) dos projectos de lei entregues pelo BE (89) e pelo PCP (88). Além disso, o número de requerimentos apresentados pelo PSD (654) fica muito longe dos 1289 concretizados pela bancada do CDS/PP.

Se a qualidade do trabalho parlamentar pudesse ser medida apenas através deste tipo de indicadores, os sociais-democratas assumiriam o ónus de ser, nesta primeira sessão legislativa, o grupo parlamentar menos dinâmicos dos seis que ocupam o hemiciclo. A verdade é que quantidade não é sinónimo de qualidade. Ainda assim, os números são quase sempre bons indicadores e estes revelam que abancada laranja perde em combatividade para o vizinho do centro direita e entrega à esquerda a dinâmica de oposição, sobretudo no que à iniciativa legislativa diz respeito.

Este PSD está perdido. Não há muito a fazer...

segunda-feira, julho 17

 

Olhar o Médio Oriente


É incrível essa ideia que os media portugueses fazem questão de sublinhar: os coitadinho do Hezbollah apenas se defendem dos israelitas assassinos.

Não quero fazer aqui a apologia da inocência judaica, nem tão pouco ignorar a história e esquecer os pecados de Israel. Mas isso é outra coisa, outra discussão. O que quero hoje deixar claro é, para quem já se esqueceu, que o jornalista deve narrar episódios, relatar factos e deixar a interpretação da mensagem ao receptor.

Basta ligar as televisões portuguesas para ficarmos completamente iludidos em relação ao que se passa no Mérito Oriente. Deixemo-nos de hipocrisias e vamos aos factos: os guerrilheiros do Hezbollah atravessaram a fronteira para Israel e capturaram dois soldados israelitas, o que desencadeou toda esta nova escalada de violência. Este é o facto, quer queiram quer não.

Depois, nesta história não há inocentes, não há “bons” nem “maus”, não existe razão. Mas há vítimas, como aquelas crianças que sucumbiram este fim-de-semana quando um míssil israelita caiu nos arredores de Beirute. Este é o cenário. Um triste cenário que só poderá ser alterado no dia em que os media e as opiniões públicas mundiais perceberem que ali, naquela zona, há muito que deixou de existir lógica e justiça. Ali não há vencedores nem vencidos, nem tão pouco existe espaço para heróis ou coitadinhos.

Contribuir para encontra uma solução para o Médio Oriente passa, em primeiro lugar, por destruir essa imagem redutora do mundo a preto e branco que insiste em distinguir os “bons” dos “maus”.

sexta-feira, julho 14

 

Olhar um refúgio


Jardim do Torel
Quando o nada basta

Aqui no canto, onde os olhos podem rasgar a Baixa e fintar o Tejo através do elevador de Santa Justa, moram vestígios de um refúgio. No alcatrão do Jardim do Torel alguém soltou uma trincha molhada de tinta branca e recordou José Régio: “Se vim ao mundo foi só para desflorar florestas virgens e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada ... o mais que faço não vale nada”.

Empoleirado sobre os Restauradores, este pequeno pedaço de nada, que noutros tempos foi prisão – local de asilo obrigatório –, está hoje votado à nostalgia das gerações. Álvaro Almeida, aos 70 anos queixa-se da falta de mesas para jogar uma “cartada” com os amigos reformados, recorda as árvores que “eles cortaram” e, num suspiro fatalista, desabafa: “Não faz mal... assim morremos mais depressa”.

Mas se algo de mórbido existe neste espaço é o silêncio. O silêncio de uma cidade que se agita à passagem das horas e à qual o Torel permanece indiferente. Não há espaço nem tempo para o ritmo cosmopolita desta Lisboa que deixou secar os dois lagos desta varanda natural.
Quem sobe através do Elevador do Lavra e desagua junto ao Campo Mártires da Pátria aproxima-se de um imponente portão de ferro: quem diria que o homem protege os refúgios, quem se atreveria a garantir que guardamos os sítios do nada. Mas sim. É do lado de lá do portão que está o Ricardo, sentado num dos bancos gastos do jardim. A t-shirt de uma famosa cadeia de restaurantes esconde um espírito introspectivo de alguém que, aos 23 anos, parece concordar com a ideia de que são as emoções que dão vida à saudade que trazemos.

- É um sitio que me traz boas memórias e onde posso estar um bocado comigo.
- Mas diz-se que nunca devemos voltar aos locais onde já fomos felizes...
- Claro que podemos, nem que seja para nos lembrarmos disso...que pelo menos aqui já fomos felizes.
- É um refúgio então...?
- Não. É um recanto só. Os refúgios significam isolamento e não me sinto isolado aqui.
- Mas disseste que neste jardim podes estar contigo mesmo....
- Sim, mas não me sinto isolado. Estamos no centro de Lisboa. Posso querer recordar algumas coisas sem estar isolado de tudo
- Sinto alguma nostalgia...
- Faz parte!

Talvez faça. Aliás, quando o tempo tiver esgotado as memórias e a sombra das palmeiras, dos plátanos e dos pinheiros já tiver cumprido o seu papel, o Ricardo vai sair pelo guardião do nada. Nessa altura, ao cravar os olhos no alcatrão, vai ler mais um recado: “Feeling the heat of the sun on my skin that´s poetry” (Sentir o calor do sol na minha pele é poesia).

sexta-feira, julho 7

 

Olhar-nos!


Indignem-se PORRA!

Há dias em que penso, por momentos, que Baptista Bastos tem razão. O jornalismo português perdeu a alma? Não sei. Julgo que perdeu a capacidade e a necessidade vital de se indignar. Hoje, a maioria tolera, inconscientemente, a “vergonha” e o “jogo sujo” passou a fazer parte do “jogo”.

Quando desvalorizamos editorialmente uma auditoria do Tribunal de Contas à Câmara Municipal de Braga – denunciado irregularidades atrás de irregularidades – só porque tais conclusões são empiricamente conhecidas ou pontualmente já divulgadas noutros casos, estamos a viciar o jogo. Aliás, estamos a perder a capacidade mais nobre e vital do jornalismo: a indignação.

Desconfiávamos que os pagamentos ao Estádio de Braga tinham sido estranhos, o TC confirmou que foram ilegais. Supúnhamos que os apoios aos clubes da região eram obscuros, o TC confirmou que violam a lei. Comentávamos que as relações entre autarquias e homens do betão eram promíscuas, o TC assume que, pelo menos em Braga, isso é claro.

Desconfiamos, supomos, comentamos e até sabemos, mas quando tudo fica mais claro desvalorizamos? Porquê? Porque assumimos, embora sem assumir, que tais irregularidades são do domínio comum e fazem parte de um jogo que, ao que parece, toda a gente conhece as regras. O que esquecemos, enquanto jornalistas, editores ou directores, é que a fronteira entre o banal e o legítimo é ténue e perigosa. Não quero, enquanto profissional da Comunicação Social, que se desvalorize em nome do “supostamente conhecido” ou do banal que agora se tolera.

Mesquita Machado e o seu executivo têm empreendido uma gestão repleta de irregularidades. Nós já sabíamos. Diz-se por aí. Não é novidade. Mas ontem o TC sublinhou e nós que fazemos? Remetemos as denuncias do Tribunal para uma página comum e nem levamos o assunto à primeira página? Porquê? Porque já desconfiávamos que assim fosse e, a juntar a isso, tudo se passa lá longe... em Braga!

O texto podia acabar aqui, se tivesse sido publicado neste espaço ao final da tarde de ontem. Um final de tarde onde discuti até à exaustão, até à fronteira do insuportável, com o meu editor. Ele deu-me uma página mas continuei incrédulo como lhe tinha sido negado (à notícia) uma referência na “primeira”.

Hoje a incredulidade deu lugar ao reconhecimento. DN e Público, jornais de referência, passaram ao lado da “vergonha bracarense”. O mesmo aconteceu com o nosso concorrente directo, o Diário Económico. Sim. Um jornal especializado em economia e finanças deixou passar em claro uma auditoria do tribunal de contas que arrasa a gestão da Câmara Municipal de Braga. Se quiser saber porque tudo isto é motivo de indignação, só lhe resta uma hipótese, pelos vistos, ler a edição de hoje do Jornal de Negócios.

terça-feira, julho 4

 

Olhar de espanto


Quando o progressismo se mistura com o banal ...
...dá sempre asneira

Eu até simpatizo com o estilo, mas há dias em que perco a paciência para João Miguel Tavares. Colunista da “Geração de 70” do Diário de Notícias que me faz balançar entre a delícia de um texto ritmado e a marca da ideologia que só às vezes convém ser ideológica.

O seu texto de hoje - “O quarto segredo de Fátima” - é, no mínimo, histórico. Não pela genialidade da prosa, nem tão pouco pela lucidez do raciocínio. João Miguel Tavares articula a sua opinião em torno de uma premissa: “Assim vamos em procissão até às meias-finais, com cinco vitórias no currículo e sem uma única exibição convincente. Cantem comigo – A-vé, A-vé, A-vé Ma-ri-a”.

Depois, bem... depois seguem-se 3 mil caracteres oscilantes entre o progressismo bacoco e a falta de honestidade intelectual. Eu não quero, nem deixo de querer, que João Miguel Tavares acredite em “Nossa Senhora empoleirada em cima de uma azinheira”, a única coisa que lhe peço – aliás, devia ser marca de bom-senso - é que respeite a devoção de Ricardo, da sua família, de Scolari e, por muito que lhe custe, da maioria dos portugueses.

Quem me conhece sabe que a minha relação com a religião se faz ondulante. Mas a minha entrega a fé passa ao lado de tudo isso. João Miguel Tavares quer, à força, ser o herdeiro do legado da verdadeira “Geração de 70”. Para isso, precisa de perceber que duas colunas no DN nem sempre transformam o banal em genial. Isso, constrói-se na simplicidade, no respeito e , sobretudo, na honestidade intelectual.

Meu caro, Portugal está nas meias-finais do Mundial porque Nossa Senhora nos tem levado ao colo! Não temos jogado nada. Os outros gajos tem tido azar e o Ricardo tem as luvas abençoadas, até porque ele é o “Rei dos Frangos!” Está aqui resumida a tua linha de (“pouco”) pensamento que choca até os Ruis Santos e Vasconcelos deste país.

A João Miguel Tavares dedico um parágrafo do camarada José Manuel Barroso:
«Um bom e grande amigo meu encontrou-me há dias, após um tempão sem nos vermos, e disparou directo: "Li aquele artigo teu sobre a selecção e os símbolos nacionais e acho que estás cada vez mais reaccionário." Assim: "reaccionário". Eu sorri, dei-lhe o abraço saudoso da praxe e respondi no mesmo tom do artigo que escrevera: "Não sei quem o estará mais ou menos, mas se não reconheces o orgulho das pessoas no gritar o nome de Portugal, no agitar a bandeira das quinas e no cantar o hino, algo de errado continua a haver no teu progressismo. Afinal, é ou não o Povo 'quem mais ordena'? Se não entendes o teu povo, como podes ser progressista?(…)»

Glória à VERDADEIRA “Geração de 70”

quarta-feira, junho 21

 

Olhar-me...


Eu e você

Não é assim tão complicado
Não é difícil perceber
Quem de nós dois
Vai dizer que é impossível
O amor acontecer
Se eu disser que já nem sinto nada
Que a estrada sem você é mais segura
Eu sei você vai rir da minha cara
Eu já conheço o teu sorriso, leio teu olhar
Teu sorriso é só disfarce
Que eu já nem preciso
Sinto dizer
Que amo mesmo,
Tá ruim pra disfarçar
Entre nós dois
Não cabe mais nenhum segredo
Além do que já combinamos
No vão das coisas que a gente disse
Não cabe mais sermos somente amigos
E quando eu falo que eu já nem quero
A frase fica pelo avesso
Meio na contra-mão
E quando finjo que esqueço
Eu não esqueci nada
E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
E te perder de vista assim é ruim demais
E é por isso que atravesso o teu futuro
E faço das lembranças um lugar seguro
Não é que eu queira reviver nenhum passado
Nem revirar um sentimento revirado
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida
Eu procurei
Qualquer desculpa
Pra não te encarar
Para não dizer
De novo e sempre a mesma coisa
Falar só por falar
Que eu já não tô nem aí pra essa conversa
Que a história de nós dois não me interessa
Se eu tento esconder meias verdades
Você conhece o meu sorriso
Lê no meu olhar
Meu sorriso é só disfarce
Porque eu já nem preciso
E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
E te perder de vista assim é ruim demais
E é por isso que atravesso o teu futuro
E faço das lembranças um lugar seguro
Não é que eu queira reviver nenhum passado
Nem revirar um sentimento revirado
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida
Ana Carolina, cantora brasileira

segunda-feira, junho 5

 

Olhar-nos...


Nação Valente?
Só nós é que não vemos!

A esta altura, mesmo antes de lerem uma linha que seja deste texto – à boa maneira portuguesa – alguns dos habituais visitantes deste blog já estão a soprar. Faz-lhes cócegas a palavra Nação, causa-lhes irritação na pele e comentam diariamente o provincianismo de pôr a bandeira à janela. Que se lixem!

Uns estão na Alemanha, outros em Timor. Cerca de trinta no centro da Europa, perto de duzentos do outro lado do mundo. São, quer queiramos quer não, a cara do Portugal de hoje. A face de um Portugal que enche de orgulho os emigrantes e é recebido em euforia por um povo que sofre. Mas em comum há muito mais.

Quer emigrantes quer timorenses teriam, à partida, poucas razões para receber em êxtase quem transporta a nossa bandeira. Uns foram obrigados a deixar o país incapaz de lhes proporcionar uma oportunidade de sucesso, os outros viram-nos partir numa manhã de nevoeiro deixando-os na mão dos ocupantes. De uma maneira ou de outra, aqueles que ontem rejubilaram com a chegada dos “nossos”, podiam bem ter-nos virado as costas. Não o fizeram. Porquê?

As razões são variadas mas resumem-se em duas declarações que marcaram o dia de ontem. Depois de mais de 8 horas à espera da selecção, um jovem emigrante de 14 anos chorava à passagem do autocarro. “Nasci aqui mas ver o meu pais aqui é o dia mais feliz da minha vida” – soluçava na Antena 1 com um “português germanizado”. Em Timor-Leste, outro jovem empunhava um cachecol verde e vermelho à passagem da coluna da GNR. “Graças a Deus” suplicava!

Deixemo-nos de hipocrisias. Tudo isto foge ao domínio da razão, e ainda bem! Dirão que os emigrantes emocionam-se por um país que, aos de cá, impõe cada vez mais desemprego, menos poder de compra, menos qualidade dos serviços públicos e que, historicamente, premeia os medíocres. Dirão que os timorenses rejubilam por o mito de uma diáspora esquecida. É esse o Portugal que vemos e vivemos. É verdade! Mas não haverá outro Portugal que só se decifra de fora? Depois deste fim-de-semana quero acreditar que sim.

Já que Díli está lá longe, quero dar um salto Marienfeld. De lá é possível olhar os contornos de uma Nação Valente que ecoa em Timor como sendo Imortal!

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